
“88”: ink, colored pencil, dry decal and collage on paper (47 x 62cm) 
“Raio Verde” series: ink, colored pencil, dry decal and collage on paper (17 x 25cm) 
“Cometa”: ink, colored pencil, dry decal and collage on paper (47 x 62cm) 
“Amanhã”: ink, colored pencil, dry decal and collage on paper (47 x 62cm) 
“Marquise”: ink, colored pencil, dry decal and collage on paper (47 x 62cm) 
“Casa N”: ink and collage on paper (30 x 25cm) 
“Entre Empenas”: ink, airbrush and collage on paper (20 x 30cm) 
“Aeroporto”: ink and graphite on peper (96 x 66cm) 
“Cápsula Espacial”: ink and collage on paper (45 x 67,5cm)
Author: brucan5_0eoq67
Mini-Cine Surrealismo, 2016
CONVERSÃO
Curated by Anelena Toku + Carlos Issa
Galeria Sé
São Paulo, Brasil
2016
Mini-cine Surrealismo: A project in collaboration with my friend Bruno Dicolla.
Working Remotely, 2020
WORKING REMOTELY: The exhibition
Curated by a83
New York, NY
2020
Amarello, 2016
Cover + Portifolio for Amarello magazine.
Special thanks to Tomás.
Por Angelo Bucci
OS DESENHOS URBANOS DE BRUNA CANEPA
Logo na capa desta edição da revista Amarello se vê como Bruna Canepa reage às pinturas que cobrem fachadas cegas nos arredores de Gênova. Em 2015, em viagem à Itália, os murais trompe-l’oeil da Ligúria lhe causaram forte impacto, nas suas próprias palavras: ‘essas pinturas não condizem com o interior do edifício. Atrás delas há algo diferente do que anunciam’.
Assim, provocada, Bruna responde com uma série de desenhos, sempre aos pares, como dípticos que seguem uma mesma estrutura sucessiva: [1] vista frontal, aquela que coloca o observador no ponto preciso para que se produza a ilusão; e [2] projeção axonométrica, aquela em que o truque se desvela. Na primeira, é puro efeito. Na segunda, está desfeito. Por isso, ver a segunda equivale a conhecer o plano; vendo-a é possível inferir como se quer iludir o observador da cena projetada. É justamente este segundo tipo que estampa a capa da nossa revista. Ou seja, ela não nos mostra o efeito, mas a chave. Uma chave é sempre um belo convite. Neste caso, a artista nos apresenta os elementos que devem figurar na cena para que a gente possa, por conta própria, imaginá-la. Como se a beleza não estivesse na obra, mas no modo como cada um a lê. Ela nos toma como se fôssemos todos artistas.
Quando atendemos ao convite e passamos ao corpo da publicação, às obras reproduzidas dentro da revista, como quem passa de Gênova a São Paulo, confirma-se ainda com maior clareza que a fonte de onde Bruna extrai os elementos constitutivos dos seus desenhos, as imagens que ela põe em movimento para a construção do seu trabalho, é outra vez a cidade. Sempre. Ali, o que sustenta [como edifícios], o que navega [como barcos] ou o que voa [como foguetes] é sempre uma elaboração sensível de sua vivência urbana.
As duas obras da casa fluxo [trabalho colaborativo / Estúdio Miniatura] também funcionam como um par ou uma dualidade. Não por acaso, aqui os dois elementos do díptico estão reproduzidos. [1] A casa, com suas paredes negras, destaca o efeito de uma luz acesa ali dentro, acentua a sensação de abrigo, lugar adequado ao recolhimento. Vista assim, por fora, ela, a casa, paira serenamente. [2] Então, quando na sequência se atravessa suas paredes externas, a ideia de aconchego se desfaz e nós a percebemos como parte de um sistema que lhe escapa e a coloniza. A casinha sem paredes se mostra completamente atravessada por feixes de conexões a que a artista chama fluxo. Inversões presentes que, a seu modo, Bruna pressente e registra. Assim, justamente dentro da casa, onde estaria o espaço da intimidade, é onde o sujeito, como a casa, se pulveriza em muitas direções a partir daquele nó de fluxos.
Uma obra das obras que não tem seu par tem duas imensas janelas. É a única ilustração de um ambiente interno. A altura do cômodo e as dimensões das aberturas são agigantadas. O sujeito ali olha através da janela, cujo peitoril está à altura dos seus olhos, e, portanto, seu ângulo de visão só abrange o quadrante superior. Ele olha um céu noturno salpicado de pontos brancos, como estrelas, e dois círculos, como duas órbitas concêntricas nitidamente desenhadas. A imagem tão sintética nos instiga de alguns modos: [1] as órbitas fazem ver que ali o céu é plano e está em movimento; [2] enquanto a sala, representada em perspectiva, tem as duas paredes laterais escapando para mais de um ponto de fuga, todos verticalmente alinhados no segmento definido entre a cabeça do sujeito e a abertura mínima, como uma inesperada seteira, na parede do fundo acima dele. Piso e o teto não seriam planos paralelos e as grandes janelas, de fato, não seriam retângulos. Perspectiva fingida ou, de novo, o trompe-l’oeil. Outra vez o contraste, ou a mediação, entre o que é verdadeiro e simulação. Justamente o alinhamento vertical dos pontos de fuga coloca em destaque uma abertura ínfima e fora do domínio visual daquele sujeito, a seteira quase perdida na parede que é coplanar ao céu poderia eventualmente enquadrar um foguete. Seria uma casa ou uma espaçonave?
A seguir, um pedaço de cidade se prepara para zarpar. Primeiro, ele se descola da malha urbana pela escala. Parece ser justamente quando mais se verticaliza e se adensa que ele se põe em condição de navegar [cidade à deriva]. Em certa medida, todo navio é exatamente assim, uma parcela urbana, como território itinerante de um país, que ele se lança ao mar. do mesmo modo acontece no trabalho de Bruna Canepa, pois aqui também a carga que aquela embarcação carrega é a matéria-prima com a qual ela constrói a sua obra. Por isso, a obra que ilustra a cidade à deriva em seção transversal [drifting city, trabalho colaborativo / Estúdio Miniatura], e planta em malha ortogonal representada logo acima, é tão significativa. Nesta carga cultural, estritamente urbana, incluem-se a montanha e as árvores; a infraestrutura, as embarcações e os aviões; os edifícios e as esculturas; enfim, o todo existente no mundo já descrito pelo homem [construído ou não por ele] faz parte dessa bagagem cultural sobre a qual essas obras tecem a sua reflexão.
É porque está munida deste acervo, ou carga cultural, que Bruna propõe com clareza didática as quatro operações sobre um cubo [denominados platônico, à primeira vista, impossível e ideal]. Ainda aqui, quatro dípticos, como se [a] o primeiro descrevesse o propósito e [b] o segundo desvendasse a estratégia. Em platônico, [a] ligar um ponto na base de uma face ao topo da face oposto; [b] uma fresta e uma escada. Em à primeira vista, [a] ligar um lado ao lado oposto em mesmo nível, próximo à base; [b] atravessar por um túnel plano. Em impossível, [a] ligar dois pontos altos em faces opostas; [b] uma combinação dos dois primeiros, mas em vez de escada, um fosso vertical, elevador, e o plano vertical subtraído para a conexão horizontal entre os dois. O ideal lança mão dos mesmos elementos, que são a escada e o fosso, a fresta e o túnel, como estratégias de conectar como um caminho a percorrer ou apenas visualmente. Mais que a soma, aqui também se sugerem ocupações ou volumes cavados dentro dos volumes. São operações arquitetônicas que evidenciam a proximidade da artista com esta abordagem.
E, seguindo ainda por este mesmo caminho, ela vai mais longe. Em proposal for a gym [trabalho colaborativo / Estúdio Miniatura], a sugestão de arquitetura é tão nítida que ganha inclusive programa. A gente imagina, de fato, aquela parede espessa como um edifício estreito para abrigar a atividade solitária em que o sujeito, preso ao próprio corpo, esgota-se ativamente na mais extrema solidão.
É sobre a beleza destas obras, extraídas da experiência de cidades a partir de uma sensibilidade notável e racionalidade, a partir destas obras realizadas com extremo apuro técnico em desenhos rigorosamente executados, que Bruna Canepa funda a sua plataforma artística. Então, sobre a plataforma, o foguete. Aquelas mesmas duas cores, azul e vermelho, usadas sempre com tanta parcimônia sobre o branco do papel e o preto dos traços, aqui neste artefato elas parecem explodir. É um foguete de carga, que pode transportar a qualquer ponto do espaço toda riqueza cultural que constitui o acervo do nosso imaginário urbano.
É assim, embarcada em seu próprio trabalho e no comando desta espaçonave, que a artista Bruna Canepa decola.
Angelo Bucci é professor na FAUUSP desde 2000, doutorado em 2005 com orientação da professora de História da Arte Ana Maria de Moraes Belluzzo, arquiteto fundador do SPBR arquitetos.
Fachadas, 2013
Miniatura Studio-X , 2013
MINIATURA: Studio-X Rio de Janeiro
Columbia University • GSAPP
Rio de Janeiro, Brasil
2013
MINIATURA was a collaborative project between Bruna Canepa and Ciro Miguel from 2011 to 2015.
Exhibition text by Vanessa Grossman
“A prisoner paints a landscape on the wall of his cell showing a miniature train entering
a tunnel. When his jailers come to get him, he asks them “politely to wait a moment, to allow me to verify something in the little train in my picture. As usual, they started to laugh, because they considered me to be weak-minded. I made myself very tiny, entered into
my picture and climbed into the little train, which started moving, then disappeared into the darkness of the tunnel. For a few seconds longer, a bit of flaky smoke could be seen coming out of the darkness of the round hole. Then this smoke blew away, and with it the picture, and with the picture, my person…” How many times poet-painters, in their prisons, have broken through walls, by way of a tunnel! How many times, as they painted their dreams, they have escaped through a crack in the wall! …If need be, mere absurdity can be a source of freedom.
Gaston Bachelard, “The miniature” in Poetics of Space
Is it the city that is out of scale, deformed, and temporally displaced, or the site, the building, both? The operations and strategies put forward by Miniatura come from the clash between the incongruence of the material landscape and architectural culture of the metropolis—which in São Paulo has reached the status of aberration—and the prominence of the exorbitant American natural landscape conditioning urban scenarios like Rio de Janeiro and Santiago. Architects could only wish they had imagined the different scales, forms, geologic formations, and temporalities that coexist in such setups.
If the incongruence of their built environment is formally, temporally and spatially decontextualized in Miniatura’s drawings, collages and models, the question of form,
scale and time is again complicated when these buildings are reinserted in the different landscapes of its photographs. By isolating and re-contextualizing, Miniatura transfers
and tests proceedings to the extreme: superimposing, narrowing, encrusting, sectioning, stratifying, turning, displacing, illuminating, walling, flooding. However, the images presented do not always consist of photomontages.
But what is real? What has been imagined?
Like in All Fires the Fire, in which every “figure” proposed by the Argentinian writer Julio Cortazár relates to each other in different spaces and temporalities – Cuba, Paris, Buenos Aires, a Greek island, Ancient Rome, Beirut – from which they can exit and enter, Miniatura searches analogous relations not in fiction but in the incongruous reality, reminding us
that the latter often surpasses the architect’s imagination. No need to paint the dream
and escape through a crack in the wall, as in the miniaturized world evoked by Bachelard: the sheer absurdity of the streets is still the largest source of freedom for the voluntary prisoners of architecture.”
X Bienal de Arquitetura de São Paulo, 2013
MINIATURA: Impossible Landscapes
X Bienal de Arquitetura de São Paulo
Curated by Guilherme Wisnik
Centro Cultural São Paulo • CCSP
São Paulo, Brasil
2013
MINIATURA was a collaborative project between Bruna Canepa and Ciro Miguel from 2011 to 2015.
Arquipélago, 2013
MINIATURA: Arquipélago
Galeria .Aurora
São Paulo, Brasil
2013
MINIATURA was a collaborative project between Bruna Canepa and Ciro Miguel from 2011 to 2015.
Exhibition text by Lucas Girard
“ILHA DE CÂMARA
os espaços que conhecemos estão todos ocupados
POSTER MODERN | NOW HERE MAN
Da borda das vontades as idéias pulam e mergulham na torrente atordoante das trocas, perdendo-se apenas para reaparecer aqui, ali e lá.
Nas centrais de Legitimação, os formulários dos protocolos de origem acumulam-se. Na rua, boletins de ocorrência pipocam nos terminais manuais. Vivemos, na concepção de Paul Virilio, uma inércia polar. O que há de real concreto, o dito corpo, esfacelado pela (f)Era do Tempo Único. O rei no Ubíquo, o controle remoto. Encurralados neste instante, lento e tão veloz, mantemos aberto o único olho que nos é permitido abrir: o Grande Olho que vê a Terra toda, que a vê girar diante de si, submissa, miniatura – teatro de nossa claustrofobia.
TUDO DE ENSAIO | ORDENADAS ABISSAIS
O mundo, objeto na mesa de operação, (a história repassada numa condensação sagaz de estilos, formas e citações) é o lugar problemático (suas cidades, o trambolho da natureza) deste indivíduo que, no topo do saber da arquitetura quer, nesta realidade pasteurizada, neste contexto de (f)rígidos ditames e emoções sincronizadas, expandir o campo de suas potencialidades discursivas, abrindo quadros para fugas críticas e temporais de imaginação.
Abrigo nas ilhas desertas, silenciosas, monumentos encalhados em planos de projeção. Aqui, a geografiase coligaria com o imaginário. Manipulações sutis na escala (frisos precisos na massa negra) e na identidade dos lugares; da paisagem kitsch à domesticação de jubartes,ascariátides-sentinela monitorando as máquinas-território flutuantes, as intervenções incisivas na semântica dos espaços conhecidos (o porão-caverna, o ático-montanha; a cidade-natureza, o avião-ilha). São operações delicadas e complexas, corte de estilete: fatias finas do Grande Embutido (literaturwurst) de Histórias e Teorias da Arte, Arquitetura e Urbanismo.
CONTOS-DE-VISTA | METAÊXTASE
O conjunto, arquipélago, de atmosferas aqui reunidas pode ser um still de uma pulverização da consciência: todo homem é uma ilha. Fragmentos paralisados de uma dispersão centrífuga de formas de viver: desejos de habitar o longínquo, o inimaginável, (conhecer os segredos do Pacífico Sul, ser senhor dos anéis de saturno), desejo de construir uma paisagem-edifício, fundar destinos-edifício para a curiosidade viajante. Despertar desejos de aventura pelos corredores largos do pensamento arquitetônico – miragens e colagens na reconstrução do mundo.”
5 CASAS exhibition, 2013
5 HOUSES: graduation thesis presentation.
December 2013.
Original drawings exhibited at Escola da Cidade. Setup created and built together with my friend Bia Matuck.
5 CASAS book, 2013
5 CASAS thesis book (25 pages)
Escola da Cidade
Printed by Meli-Melo Press
São Paulo, Brasil
2013
Introductory text by Angelo Bucci
Bruna Canepa’s 5 houses By Angelo Bucci
Introduction
Bruna Canepa’s 5 Houses, her BA thesis presented at Escola da Cidade on December the 11th 2013 under the orientation of César Shundi Iwamizu, makes one think about the meaning of the activities of teaching and work with architecture. In other words, her work reinvigorates one’s belief in both of these things.
To begin with, one ought to stress something: the production of such a work requires a pre-existing felling of discontentment that, given a sharp sensibility, activates the mentioned architect from the beginning, or even before that. There sensibility acts as a motor, whose fuel is anguish in the face of the narrow boundaries for an excessively pre-defined acting procedure; the lack of satisfaction in the face the hegemony of a purely technical and normative activity; the need that resents from the lack of a symbolic activity; in sum, the will not to content oneself with what is not enough. In other words, from what is distilled by sensibility the motor puts itself into motion and charges from the subject a corresponding reaction. The answer, if it is to be formulated in a strong manner, mobilizes the entirety of a propositional arsenal. But look out, for both expressions, sensibility and propositional arsenal, have breadth. In other words, they encompass a huge gradation, a variation of degree that define, on the one hand, say, a certain sensible intensity; and, on the other, the capacity to formulate an answer. It is in this breadth that one defines the density of the works produced in the process. For this reason, to be conscious of it, as if it corresponded to the material that fills up the immense distance separating the surface of a question from its core, is the main objective here. Besides, this point is of particular interest in an academic setting, for the role of an architecture school is only achieved by means of a commitment to elevate to its higher degree the quality of the architectonic propositions, and this presupposes that one identifies and works on the density of the terms, on the breadth that lies in the sensibility and in the propositional arsenal.
It so happens that that same discontentment, which foments the author’s sensibility in the work in question, is also present in architecture school around the world. But they, the institutions, are in disadvantage, for they lack that sensibility and, therefore, they are incapable of coming up with a reaction by means of the senses.
Much on the contrary, they tend to be dominated by a diffused discomfort, in which both the provocative context and the capacity to answer are dulled.
It is through this road that 5 Houses universalizes itself, i.e., it elaborates a unique and beautiful project in response to a discontentment that is shared by many.
The origin of that discontentment lies in the split that undoes a duality. That is, in the break of the tense bond that keeps two apparently opposed fields together. This duality is dynamic and is easily put off balance. Therefore, it must be continuously renewed to re-establish the link that keeps both fields tied together. This link is renewed in this work. The duality, in this case, is like a play that, at every moment, requires a
new representation [make it present again], new actors that act [actualize] in order to renew its meaning.
The characters can change at each moment, but they always represent those two separate fields: letter and number, theory and practice, judgement and action, body and soul, music and lyrics, image and matter, art and technique and so fort; but the fields of knowledge that compose the duality are always the same, the only ones that organize all knowledge: the sciences of men and the sciences of nature. No word better represents the link that unites these two worlds than the work that carries this duality in itself, but is neither one thing or the other, it was created exactly to designate the activity in which it supports itself, at the same time, in two different grounds: architecture is the link. In this sense, 5 Houses becomes a synonym for architecture. It’s not little.
But it is more. For, as we have seen, the duality is put off balance in cycles. Today, it is put under the hegemony of a technical and scientific kind of rationality. Thus, the link that guarantees the endurance of the duality is made fragile and that duality tends to crumble, or to reduce itself to only one of its components. One is expanded while the other is compressed, but of course, in this way both are symmetrically deformed. Abundant resources and scarcity of sense. Human reason is made dull. Discontentment to a sensible spirit. It is through this road that the work in question broadens our field of possibilities and reinvigorates our faith in the teaching and in the practice of architecture.
How did Bruna Canepa do this in 5 Houses? Strategies
Knowingly, the work creates a method for traversing straight through everything that is opposed to its process of propositional elaboration as a paralyzing obstacle. Thus, it runs free over everything and, by means of a set of pre-defined procedures, it goes straight towards the target: the houses of human existence. In other words, Bruna’s drawing puts the focus on life on an existential dimension.
Besides the very title, 5 Houses, two strategies are worth mentioning.
The first is the very duality, or the link that guarantees it, which is a recurring aspect of the work.
General dualities, like text and drawings; the house and the city, the inhabited and the inhabitant, the home and the one who lives in it; and specific dualities, like the plane that splits, but also unites [plane house], the sister houses [museum house], the wall and the window [billboard house], opposing balconies [one-man building], the everlasting and the changeable [time house]. However, it is worth noticing that the duality in this work is not presented as a goal, it corresponds here to the consciousness of a condition, in the sense that it shapes each action in opposition to the other, as if every movement in a field echoed in its opposite field. It is as if the movements were actors that represented the apparent oppositions: to make larger and in miniature, to stretch and to shorten, to surround and to open, to section and to duplicate, to lift and to sink, and so fort. Thus, the duality is the background that shapes each sensible movement.
The second feature is, of course, the set of procedures, the house and seventeen actions, presented in a diagram, or better said, eighteen procedures. They are operations in the sense that the are not launched to produce a fixed result, but an open one, they are launched as a strategic way of acting. They correspond to propositional schemes that unfold both in the drawings and in the texts.
It is noteworthy that the first drawing in this diagram corresponds to the house, the only drawing whose title is a name, for all the other are verbs. They are indeed eighteen, for they represent eighteen ways of seeing, and of acting, therefore to the first also corresponds a verb.
It makes perfect sense, for an important goal of this work is to tease the look. And it does it when it says that to see one must look at the same thing in many different ways, as many as one can. It says so clearly proving it. In this sense, the five houses are only one, the same house, not necessarily the first shown in the diagram, seen through many different lenses.
But they are far more than houses, they contain the city that is represented by books, by the plane [the city that flies] and by the ship [the city that sails]. They contain the sky, which is brilliantly represented by the plane house: one room that has as ceiling the celestial firmament. They contain the present, the past and the future in the pace that forms the time house. In sum, the impression one gets is that everything that inhabits the imaginary universe of architects is present in the surprising approach to such an apparently simple theme, the house. Is it enough?
Conclusion
No, for it keeps on going. The whole set has linearity, form and narrative, which make one see the sequence of boards as something connected and entwined. It’s true, the pieces together are such a cohesive set that they form a single work. On the other hand, and this is very surprising, each piece, when taken in isolation, is an autonomous work with respect to the others, i.e., it is a work that is enough in itself, without resentment from its lack of context. It is such a well-composed balance between the totality and its composing units that it makes us think that we are facing a model for the city as a built space and as a living together of people. Certainly, the city also informs it. The houses contain the city within themselves.
Evidently, Bruna knows the lyrics, the music and, most importantly, she knows what to say. She invents a strategy to cross barriers, lends her heightened sensibility and propositional arsenal to formulate what would be impossible for an institution to do. Celebration to a good school that knows very well, it receives itself, coming from the students, its best lessons.
Bruna Canepa’s 5 Houses is a work to be remembered.
As 5 casas de Bruna Canepa
por Angelo Bucci
Introdução
As 5 Casas de Bruna Canepa, trabalho final de graduação apresentado na Escola da Cidade em 11 de dezembro de 2013 sob orientação de César Shundi Iwamizu, faz pensar no sentido do ensino e da atividade da arquitetura. Melhor dizendo, o resultado do trabalho dela revigora a nossa fé nas duas coisas.
De início, vale um destaque, a produção deste trabalho pressupõe a pré-existência de um mal estar, que graças à sensibilidade aguçada neste caso aciona a arquiteta logo de início, ou ainda antes disso. Ali, a sensibilidade atua como um motor, cujo combustível é a angústia, diante dos limites estreitos para um agir excessivamente pré-definido; a insatisfação, diante da hegemonia de um agir puramente técnico e normativo; a carência, que se ressente da falta de um agir simbólico; enfim, o inconformismo em resignar-se ao que não lhe basta. Ou seja, a partir do que a sensibilidade destila o motor se põe em movimento e cobra do sujeito uma reação à altura. A resposta, para ser formulada de modo contundente, mobiliza todo um arsenal propositivo. Mas atenção, as duas expressões, sensibilidade e arsenal propositivo, têm espessura. Ou seja, elas contêm uma gradação imensa, uma variação de níveis que definem por um lado, digamos assim, uma certa intensidade sensível; e, por outro lado, a capacidade para formular uma resposta. É nessa espessura que se define a densidade das obras produzidas no processo. Por isso, percebê-la, como se ela correspondesse ao material que preenche a distância imensa que separa a superfície do núcleo de uma questão, é objetivo crucial aqui. Além disso, o ponto interessa em especial no contexto acadêmico, pois o papel de uma faculdade de arquitetura só se realiza no compromisso de elevar ao máximo a qualidade das proposições arquitetônicas, e isso pressupõe identificar e trabalhar na densidade dos termos, na espessura que cabe na sensibilidade e no arsenal propositivo.
Acontece que aquele mesmo mal-estar que instiga a sensibilidade da autora no trabalho em questão, está também disseminado nas escolas de arquitetura do mundo todo. Mas elas, as instituições, estão em desvantagem, pois lhes falta aquela sensibilidade e, por isso, elas são incapazes de elaborar uma reação pelos sentidos. Ao contrário, nelas tende a predominar um desconforto difuso em que se turvam tanto o contexto que provoca quanto a capacidade de resposta. É por esse caminho que 5 Casas se universaliza, ou seja, ele elabora um projeto único e belíssima em resposta a um mal-estar compartilhado entre muitos.
A origem daquele mal-estar está na cisão que desfaz uma dualidade. Ou seja, na quebra do elo tenso que mantém juntos dois campos, aparentemente opostos. Essa dualidade é dinâmica e se desequilibra facilmente, portanto ela precisa ser renovada continuamente refazendo o elo que mantém atados os dois campos. Esse elo se renova que neste trabalho. A dualidade, no caso, é como uma peça teatral que, a cada momento, é necessária uma nova representação [fazer virar presente de novo], novos atores que atuam [atualizam] a fim de renovar seu significado. Os personagens podem mudar a cada época, mas eles sempre representam aqueles dois campos separados: letra e número, teoria e prática, juízo e ação, corpo e alma, música e letra, imagem e matéria, arte e técnica e assim por diante; mas os campos do saber que compõem a dualidade são sempre os mesmos, os dois únicos que organizam todo o saber: as ciências dos homens e as ciências da natureza. Nenhuma palavra representa melhor o elo que ata esses dois mundos do que uma a palavra composta por duas outras cada uma delas apoiada num dos dois campos, a palavra em si carrega essa dualidade, mas não é uma coisa nem a outra, ela foi criada justamente para designar a atividade que se apoia, ao mesmo tempo, em dois terreno distintos: arquitetura é o elo. Ora, nesse sentido o trabalha 5 Casas torna-se sinônimo de arquitetura. Não é pouco.
Mas é mais. Pois como vimos, a dualidade se desequilibra ciclicamente. Atualmente, ela está subjugada à hegemonia da razão técnico-científica. Assim o elo que garante a permanência da dualidade se fragiliza e ela, a dualidade, tende a se desfazer, ou reduzir-se a apenas um dos seus componentes. Um se expande enquanto o outro se comprime, mas, claro, assim os dois juntos se deformam simetricamente. Recursos abundantes e escassez de sentidos. A razão humana se esvanece. Mal-estar para um espírito sensível. Ínfimo campo de possibilidades para as elaborações do arsenal propositivo propriamente humano. É por esse caminho, que o trabalho em questão amplia o nosso campo de possibilidades e revigora a nossa fé no ensino e na atividade da arquitetura.
Como a Bruna Canepa faz isso com apenas 5 casas?
Estratégias
Deliberadamente, o trabalho inventa um método para atravessar direto por tudo o que se opõe como obstáculo paralisante ao seu processo de elaboração propositiva. Assim, passa livre por tudo e, municiado de um conjunto de procedimentos pré-definidos, vai diretamente ao alvo: as casas da existência humana. Ou seja, o desenho da Bruna põe o foco na vida numa dimensão existencial.
Além do próprio título, 5 Casas, duas estratégias merecem destaque.
A primeira delas é a própria dualidade, ou o elo que a garante, que é um aspecto recorrente no trabalho. São dualidades gerais, como o texto e os desenhos; a casa e a cidade, o habitado e o habitante, a morada e o morador; e dualidades específicas, como o plano que divide, mas também funde [casa plano], as casas irmãs [casa museu], o muro e a janela [casa outdoor], varandas opostas [prédio de um homem só], o permanente e o mutável [casa tempo]. Porém, vale notar, a dualidade no trabalho não se apresenta como uma meta, aqui ela corresponde à consciência de uma condição, no sentido de que é ela que informa cada ação em oposição à outra, como se todo movimento num campo reverberasse no campo oposto. É como se os movimentos fossem os atores que representam os aparentes opostos: aumentar e miniaturizar, esticar e encurtar, cercar e abrir, seccionar e duplicar, levantar e afundar e assim por diante. Assim, a dualidade é o pano de fundo que informa cada movimento sensível.
O segundo destaque, claro, está no conjunto de procedimentos, a casa e dezessete ações, apresentados num diagrama, ou melhor, os dezoito procedimentos. Eles são operações no sentido que não são lançados para produzir um resultado determinado, mas sim aberto, são lançados como um modo de agir estratégico. Eles correspondem a esquemas propositivos que se desdobram tanto nos desenhos quanto nos textos. É notável que o primeiro desenho neste diagrama corresponda à casa, o único desenho cujo título é um nome, pois aos outros todos correspondem verbos. São dezoito de fato, pois eles representam dezoito modos de ver, e agir, portanto ao primeiro também corresponde a um verbo.
Faz todo sentido, pois uma meta importante deste trabalho é provocar o olhar. E faz isso ao dizer que para ver é preciso olhar a mesma coisa de muitos modos distintos, tantos quantos se possa. Diz demonstrando claramente. Nesse sentido as cinco casas são apenas uma, uma mesma casa, não necessariamente a primeira mostrada no diagrama, vista através de várias lentes distintas.
Mas são mais que casas, elas contêm a cidade representada pelos livros, pelo avião [cidade que voa] e pelo navio [cidade que navega]. Elas contêm o céu, tão bem representado na casa plano: um quarto que tem como teto a abóbada celeste. Elas contêm o tempo presente, passado e futuro no andamento que forma a casa tempo. Enfim, a impressão que se tem é de que tudo que ocupa o universo imaginário dos arquitetos comparece na abordagem surpreendente que se imprimiu a um tema aparentemente tão singelo, a casa. Basta?
Conclusão
Não, pois segue adiante. O conjunto todo tem linearidade, formato e narrativa que faz com que a sequência das pranchas seja vista de modo encadeado e entrelaçado. É verdade, as peças juntas são um conjunto tão coeso que formam uma única obra. Por outro lado, e isso é muito surpreendente, cada peça produzida, se tomada isoladamente é uma obra que tem autonomia em relação às outras, ou seja, que se basta completa sem se ressentir da falta do conjunto. Trata-se de um equilíbrio tão bem feito entre o conjunto e as unidades que o compõem que nos faz pensar que estamos diante de um modelo para a cidade como espaço construído e como convívio entre as pessoas. Certamente é a cidade também que o informa. As casas contêm a cidade dentro delas.
Evidente, Bruna sabe a letra, a música e, mais importante, ela que sabe o que dizer. Ela inventa uma estratégia para atravessar as barreiras, empresta a sua sensibilidade aguçada e arsenal propositivo para formular o que a uma instituição seria impossível de fazer. Celebração para uma boa escola que sabe muito bem, é ela mesma quem recebe, vindas dos seus estudantes, as melhores lições.
As 5 Casas de Bruna Canepa é um trabalho a ser lembrado.

























































