SOUVENIR, 2022

SOUVENIR
2022

Texto: Yuri Quevedo

O souvenir é a lembrança barata de algo especial. É o fragmento ordinário de um todo extraordinário e memorável: uma viagem, uma cidade estrangeira, um cânion ou uma praia, um museu ou um motel, um amor. É o que resta depois que as coisas acabam e, como coisa, vai sobrando no fundo das gavetas, amarfanha em pastas, ou se ajunta em álbuns. No tempo, os souvenires perdem o sentido de lembrança, e se consolidam como linguagem: a praia do Caribe pode ser daquela viagem

ou um brinde da pizzaria etc. Assim, Bruna Canepa se fascina por eles e guarda no desejo de poder usar.

Nestes trabalhos, a artista monta superfícies onde os souvenires podem voltar
a existir. Arquiteta, usa a escala para assentar pequenas lembranças em paisagens agigantadas, vitrines ou, mais uma vez, devolvê-las ao fundo da gaveta. Mas as relações oscilam no interior de cada desenho. O papel dobrado descortina horizontes ou é afastado para encontrarmos o que perdemos no fundo da bagunça. Não se sabe se são representações de carros, pessoas ou objetos. Impossível dizer se são fachadas ou cartões postais.

Em todo caso, são universos fascinantes montados com o esmero de um arsenal de ferramentas e recursos armazenados em caixinhas, gavetas e mapotecas. Bruna busca pretextos para a precisão técnica, para a solução de borrões,
para reversibilidade do traço. Cada desenho é o prêmio de um desafio – resolvido com mil e uma penas de nanquim, esponjinhas, estiletes, adesivos, máscaras e etc. São, afinal, souvenirs de histórias que só ela conhece, envoltos no mistérios

que recordam o fazer e o cotidiano, agora transformados em uma imagem que diz de forma explícita: articulo um vocabulário, me tornei linguagem.